Reproduzimos abaixo mais Relatos de Práticas, cujos autores autorizaram a publicação neste blog:
- Arte, Cultura, Esporte e Lazer
Evento: Qual o tamanho da sua loucura? - Uma proposição artística enredada na luta antimanicomial de Campinas. Integrando as ações da semana da Luta antimanicomial de Campinas-SP, o projeto de arte postal veio compor no terreno de forças políticas do cenário da cidade. A luta antimanicomial é um movimento iniciado em 1987 por usuários, familiares e trabalhadores, caracterizado pela reivindicação do direito fundamental à liberdade, de viver em sociedade e que propõe a ressignificação do imaginário social da loucura. A arte postal tem como característica a troca sem comércio, democrática e popular, podendo ser realizada por qualquer pessoa. A organização da luta antimanicomial de Campinas mobiliza anualmente atores a resistirem ao estigma e as marcas de desvalor atribuídas a loucura, valorizando as potências de vida. Nesse ano, para a comemoração da luta, foi feita uma convocatória de arte-postal com o tema “Qual o tamanho da sua loucura?”, divulgada internacionalmente e intersetorialmente com o objetivo de resultar em uma exposição itinerante em diversos serviços de arte, cultura e saúde de Campinas. Trata-se de uma ação para tramar redes através do envio e trocas de postais entre lugares distintos. Os participantes foram convidados a comporem com suas pinturas, desenhos, escritas, colagens, idéias, afirmações expressivas nos postais, criando encontros com suas próprias e outras loucuras. A arte é usada como ferramenta de comunicação e afirmação das pessoas, de um jeito agradável de discutir questões polêmicas, onde o usuário sai do papel de paciente e se torna protagonista, se torna artista. O tamanho da loucura, seja ela grande, pequena ou muitas, se apresentou em variações que ocuparam o tamanho de cada postal, sendo expressão criativa singular de cada participante.
Gostaria de contar sobre o grupo de música Morada Canto dos Ventos, que é uma parceria das moradias com o ceco rosa dos ventos. O grupo surgiu há 4 anos a partir de um diagnóstico de enfermagem levantado pelo enfermeiro e trazido pela equipe da moradia que era o de mobilidade fisica prejudicada. Os moradores, uma população mais idosa, permanecia maior tempo em casa, ociosos. Foi oferecido o grupo como forma de socialização, convivência fora da casa em outro espaço e com pessoas da comunidade. O grupo acontece uma vez por semana, as quartas-feiras das 10 as 12 h. Participam os moradores do serviço residencial terapêutico, pessoas da comunidade, profissinais do serviço de saúde da moradia e do ceco rosa dos ventos. A resposta desse grupo foi bastante positiva. Eles perguntam toda semana: quarta-feira tem o grupo de música, um morador pergunta: quarta-feira tem a exposição de múisca? outra moradora quando chega quarta-feira ela diz: hoje tem a banda né moço? Sim hoje tem a banda para uns, o grupo para outros e a exposição para outro. Lá alem de cantar em grupo, temos alguns cantores solos, que tem o seu repertório para as apresentações. Além da música a dança se fez presente, o que avaliamos uma outra atividade física para a população do grupo, pois enquanto cantamos, dançamos, nos movimentamos. No decorrer desses quatro anos eles pediram um uniforme para o grupo e juntos criamos a camiseta do grupo de música, que ficou colorida e o desenho foi escolhido numa votação dos integrantes do grupo de música. Outra coisa que apareceu e se firmou foi as festas de aniversário dos menbros do grupo de muśica, que comemoramos sempre na ultima quarta-feira do mês. O grupo também se apresenta em festas, comemorações e todo final de ano saímos para comemorar nosso trabalho e encerramos as atividades anuais com um churrasco numa chácara com piscina. Os desejos aparecem e na medida do possível vamos realizando. Uma outra observação que acredito que vale a pena contar é que no inicio do grupo tinhamos uma população mais idosa, hoje temos jovens participando dessa atividade e a relação é bastante positiva, pautada no respeito. E o repertório musical é bastante eclético. Há música para todos os gostos e estilos.
Título da experiência: A SAÚDE EM MOVIMENTO – VIABILIZANDO PRÁTICAS CORPORAIS NO TERRITÓRIO ATRAVÉS DA PARCERIA ENTRE CENTRO DE CONVIVÊNCIA E UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE.
O objetivo deste trabalho é apresentar uma experiência de realização do Movimento Vital Expressivo, desenvolvido em parceria entre Centro de Convivência Portal das Artes e Centro de Saúde Esmeraldina, ambos serviços localizados no Distrito Sul do Município de Campinas, destacando os efeitos positivos da própria atividade, como também discutir a importância de estabelecer parcerias para viabilizar projetos no território na linha da clínica ampliada e da promoção de saúde. O grupo de Movimento Vital Expressivo (MVE) é um dos instrumentos do Sistema Rio Aberto – fundado em Buenos Aires (Argentina) e que conta atualmente com novos centros em vários países como Brasil, Estados Unidos, Espanha, Israel, Itália, México, Rússia e Uruguai. Em
Campinas, esta técnica grupal é desenvolvida há vários anos em unidades de saúde e espaços públicos, fazendo parte de um investimento da Secretaria Municipal de Saúde do município nas práticas integrativas. A aposta é investir em atividades que possam aumentar a qualidade de vida das pessoas. O MVE trabalha com música, utilizando o corpo como veículo e foco de ação transformadora na busca do equilíbrio. Os ritmos, a sequência de movimentos, a expressão, o jogo com o corpo e a respiração têm o objetivo de desenvolver o potencial expressivo, facilitar o encontro de cada um consigo e com as/os companheiras/os, gerando uma grande circulação energética. A cada encontro, a partir de ritmos variados, vão se criando vários movimentos e formas de expressão com o objetivo de provocar transformações no campo físico, emocional, mental e espiritual. Os estímulos oferecidos conduzem a uma ampliação do estado de consciência e ao autoconhecimento. Os movimentos são criados de forma espontânea, sem uma prévia coreografia, porque o que importa é a necessidade do momento para as pessoas daquele grupo naquele instante. Em setembro de 2014 uma psicóloga do Centro de Convivência Portal das Artes e duas agentes comunitárias de saúde (ACS) do Centro de Saúde Esmeraldina estabeleceram uma parceria para desenvolver o MVE em um salão comunitário pertencente a igreja católica próximo ao Centro de Saúde. As ACS que até então realizavam o Lian Gong, sentiram a necessidade de levar a população mais uma proposta de atividades corporais. Paralelo a isto, a psicóloga com formação em MVE viu a possibilidade de desenvolver esta prática no território do Centro de Saúde, visto que a população deste território tinha dificuldade para acessar as atividades desenvolvidas pelo Centro de Convivência, pois ainda que os Serviços estejam no mesmo Distrito, há uma distância física que impossibilita a participação dos usuários do Centro de Saúde no Centro de Convivência. Além disso vale ressaltar que é missão do Centro de Convivência é realizar ações itinerantes no território e não somente dentro da sede. Deste
modo ambos os Serviços, imbuídos da missão de desenvolver a clínica ampliada, atividades de promoção de saúde com ações no território, viabilizam o acontecer desta atividade. Desde setembro o Movimento Vital Expressivo acontece no Salão da Igreja, todas as quartas-feiras das 8:30 às 9:30h, contando em média com 30 pessoas por grupo, sendo que a cada encontro sempre há pessoas novas. Pode-se observar vários efeitos positivos a partir a realização desta atividade. Muitos participantes relatam maior vitalidade física, ampliação da rede social e diminuição das dores musculares, diminuição de sintomas de depressão, possibilidade de fazer vínculos sociais e de amizade, valorizando a atividade em todos os aspectos que ela se propõe a trabalhar. As facilidades para desenvolver a proposta vem da parceira bem constituída entre os Serviços, o apoio do Distrito de Saúde Sul, o próprio local por ser um salão que comporta cerca de 50 pessoas e a própria aceitação do grupo. Pode-se afirmar que são usuários muito engajados na comunidade e que com certeza sempre estarão mobilizados em busca de atividades que possam trazer bem-estar e qualidade de vida.
- Apoio Matricial e Intersetorialidade
O CENTRO DE CONVIVÊNCIA – UM LUGAR PARA CHAMAR DE SEU
Relato de uma experiência em Apoio Matricial, do Trabalho em Equipe e em Rede
Este relato tem o objetivo de compartilhar uma rica experiência de ações que vão do acolhimento de uma usuária ao serviço, passando pelas ofertas do serviço, às ações do apoio matricial e da construção do trabalho em equipe e em rede. É preciso dizer, que o caso nos chega meio “às avessas”, porque inicialmente nos parecia uma demanda com questões de reabilitação física, mas numa sequencia de ações na busca da compreensão do caso e de uma atenção eficaz, deu-se o envolvimento das profissionais, de toda a equipe e da usuária e seus familiares com o serviço. Tudo começa quando recebemos uma família no Centro de Convivência/CECO, encaminhada por um médico, neurologista assistente, solicitando a inclusão de sua paciente nas atividades terapêuticas do serviço, sendo que esta pessoa, uma jovem de 35 anos, apresenta o diagnóstico de Alzheimer Precoce. Ela vem sendo acompanhada pela equipe médica da Neurologia e Genética da Unicamp e o Médico do Convênio. De início, há um grande impacto com a situação descrita pela família, tanto em termos do adoecimento desta jovem, como por nos apresentarem um cenário de diversas perdas
familiares devido ao mesmo problema. Ela passa a vir ao CECO, acompanhada por sua avó materna, uma senhora de 84 anos e trazida pelo pai. Sua irmã mais nova é atualmente uma das principais cuidadoras dela, e aos poucos se tornou grande parceira do nosso serviço. Uma preocupação inicial com o caso mostrou ser a própria dinâmica do serviço, sendo que no certo enquadramento das doenças e de seus tratamentos nos devidos serviços de saúde. E foi a família mesmo que nos alertou que não estavam em busca do tal atendimento especializado, mas que gostariam de um espaço para “se distrair, fazer amigos (sic)”. É importante dizer que esse caso chega quase junto de duas profissionais que também foram acolhidas neste serviço, devido a um longo e desgastante processo de desligamento de suas atividades até então desenvolvidas na Atenção Básica. O devido desligamento deu-se por inúmeros motivos e circunstâncias políticas e institucionais da relação que permeiam um convênio de saúde, entre o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e a Prefeitura Municipal de Campinas, na área de atenção à Saúde Mental.
Todo esse contexto é importante para demonstrar quantas variáveis se entrelaçam quando do acolhimento de um novo usuário no serviço, tais como o momento da equipe, os afetos, as potências, o fazer significante. E é disto que queremos dizer com o este relato! A usuária e sua avó passaram a frequentar as atividades do CECO, inicialmente na Oficina de Culinária, passando a transitar pelo serviço com mais liberdade e familiaridade, e atualmente frequentando Oficina de Dança do Ventre e Grupo de Música junto dos alunos da FUMEC (Alfabetização de Jovens e Adultos). Além disso, elas participam dos eventos e festas realizados no serviço, e um belo trabalho de fotografias possibilita registra-las de maneira muito especial. Os outros familiares acessam o serviço de maneiras diferentes, mas encontram-se conectados também.
E daí para frente, realizamos algumas discussões deste caso, seja no matriciamento para fora e para dentro do serviço, buscando parcerias no trabalho em rede. Desde discutir o caso com uma Assistente Social sobre a sua situação previdenciária, reunir documentos e relatórios para subsidiar o pedido de aposentadoria, discussões do caso com o Centro de Reabilitação Física, refletir sobre o cuidado num curso de apoio matricial, trocar informações com o médico assistente, planejar e decidir passos e ações junto da família, problematizar a assistência especializada, são algumas das muitas ações realizadas pela equipe. Essa relação construída especialmente com essa usuária e sua avó, trouxe grandes reflexões para a equipe e uma relação permeada em grandes afetos. Sobre a permanência nas atividades do CECO, a avó diz assim: “aqui eu me sinto gente (sic)”. E este espaço tornou-se vital para ela também. Mulher forte, guerreira e que hoje encontra seu espaço nas quintas-feiras, que invadiram internamente e para sempre todos os seus dias. Dos grandes dilemas que o próprio caso nos traz, as perdas são muito fortes, intensas e progressivas. No entanto, é possível dizer que a relação que a usuária estabeleceu com o CECO, possibilitou ganhos importantes, seja da qualidade de vida, dos afetos despertados e compartilhados, das experiências de cozinhar, conversar, cantar, abraçar e dançar. E a equipe vai se adaptando à medida da sua necessidade para melhor atendê-la. O CECO é o lugar onde a relação não se dá pelo diagnóstico. As ofertas possibilitam uma grande interação entre pessoas e diferentes gerações. Outros usuários, dizem da importância de estar nesse lugar, espaço de ressignificar a vida, as dificuldades e perdas. Um espaço de encontro com o outro, com suas potências e fragilidades, e nesse sentido, há um reconhecimento de igualdades.
Da nossa parte, é um prazer imensurável, compartilhar destes momentos e realizar atividades onde se vê na prática os termos por nós tão usados, tais como: a reforma psiquiátrica, a reabilitação psicossocial, a clínica ampliada, a integralidade, o acesso, os vínculos, e tantas questões fundamentais no cuidado em Saúde Mental. O CECO possibilita constante aprender, fazer, trabalhar, amar, brilhar, ser, estar, compartilhar, abater e resistir, são verbos descritos pela equipe, sobre aquilo que permeia o trabalho e que dá sentido ao seu fazer.
Desta forma, afirmamos o Centro de Convivência como um lugar para chamar de seu!
Realizo Matriciamento em três unidades básicas da região Noroeste de Campinas, C.S. Valença, Sta. Rosa e Lisa. São encontros quinzenais em cada unidade onde ocorrem discussões de caso, construção de PTS, atendimentos e visitas domiciliares compartilhadas, capacitações, apoio às equipes para condução dos casos de Saúde Mental. Cada unidade tem uma forma particular de ocorrer o Matriciamento. Duas delas são menores, C.S. Sta. Rosa e Lisa, onde participo das reuniões gerais de equipe e pensamos em estratégias de cuidado para os usuários da região que são inseridos no CAPS, assim como usuários que já tiveram alta do CAPS ou se tratam com a equipe de saúde mental da unidade básica maior (Valença) que a referencia. Também organizamos visitas domiciliares em conjunto com os agentes de saúde da unidade e enfermeiro e realizamos atendimento em conjunto conforme o caso. Na unidade básica maior, C.S. Valença, que possui equipe de saúde mental, as reuniões acontecem com a equipe de saúde mental num dia específico e presença dos CAPS III e Infantil, assim como das duas unidades menores. São realizados atendimentos compartilhados e construção de PTS. Nesta unidade também existe um “Grupo de Transição” realizado pelos psicólogos da equipe com usuários que tiveram alta do CAPS.
-Desinstitucionalização e o cotidiano do tratamento na Reforma
“AMBIÊNCIA: o coração do CAPSinho”: produção de encontros para manejo clínico e cuidado à crise para crianças, adolescentes e suas famílias Autores: Coletivo de trabalhadores, residentes e estagiários do CAPSij Espaço Criativo - Campinas/SP Ambiência é um dispositivo clinico-institucional do CAPSij Espaço Criativo (Campinas/SP), composto por um time de 4 profissionais que são os principais responsáveis (no período da manhã ou tarde) pela organização do serviço (dinâmica, encaminhamentos e manejo das situações e demandas do período). Nesse espaço também são realizados acolhimentos e escuta, além de atividades com foco terapêutico e na convivência dos diversos sujeitos com seus diferentes sofrimentos, que ali estejam. É um dispositivo organizador e imprescindível para o bom funcionamento do serviço. O time de ambiência trabalha de modo multiprofissional, fazendo a gestão do cotidiano do serviço. É um dispositivo de fato terapêutico, propicia interação entre/com usuários, familiares e profissionais, intervenção, observação, avaliação, manejo clínico e de atenção à crise. Sendo, portanto, espaço do inusitado e da espontaneidade, considerado como o “coração do CAPSij” ou ainda, “espaço não tradicional que conquistou a função de alicerce do CAPSij”. É uma força instituinte, que se revigora na própria dimensão de sua produção, provocando novos arranjos/dispositivos, novas reflexões, novas práticas. Trabalho mais vivo e em ato, produtor de interações únicas, espontâneas e não planejadas. Por sua potência, é considerado pela equipe como paradigma (modelo de atenção e gestão da clínica) da organização do processo de trabalho da equipe, a partir da gestão do time, que provoca/evoca/possibilita trocas e encontros efetivamente coletivos, onde vínculos são criados e fortalecidos, inclusive nas situações de crise, e que resultam em produções coletivas que levam à autonomia e protagonismo dos usuários - objetivo/desafio do trabalho no CAPSij. Como produto deste dispositivo, pode-se citar o surgimento de grupos e oficinas, como os grupos de familiares. Atividades lúdicas com as crianças. Atividades propostas na cozinha, trocas com as famílias em conversas informais, rodas de conversa. Coisas inusitadas e não planejadas, como: usuários ajudando (a seu modo) no time, pessoas muito diferentes brincando juntas, oficinas eventuais, quebra da rotina, assembléias extraordinárias. Atividades coletivas de grupos e oficinas formais que se esparramam e derramam na ambiência, “labirinto das sensações” (a partir da oficina de beleza, provocando experimentação e discutindo sexualidade e sentimentos), “corpo criativo” (grupo de experimentação corporal ofertando uma festa a fantasia), confecção de cartões para a Arte Postal (evento da Luta Antimanicomial). Crianças, adolescentes, famílias e profissionais pulando corda. Processo de avaliação de usuários em acolhimento. Nessa miscelânea, as diferenças e esquisitices se encontram e são produzidas brincadeiras, bolos, passeios, reflexões. Construção das ações a partir das demandas trazidas pelos usuários e com a participação efetiva destes, na criação/escolha das atividades e nos seus Projetos Terapêuticos Singulares. Portanto, a ambiência é considerada pela equipe como um dispositivo clinico-institucional fundamental para o funcionamento do CAPSij. Ela que define e estrutura o cotidiano de trabalho, o que dá ao serviço suporte e sustentação para a clínica e a reabilitação psicossocial, para o manejo e cuidado da crise, auxilia nos processos de avaliação e acompanhamento dos usuários. Inclusive, cumpre-se uma função de observatório do funcionamento do CAPSij, serve como importante analisador institucional, por possibilitar o encontro e as trocas, o convívio entre as diferenças, promover a horizontalidade nas relações de poder e saber, sendo, portanto, fundamental que todos os membros da equipe circulem e vivenciem em algum momento essa prática do encontro com o inusitado.
Com a intervenção do Ministério da Saúde no Hospital Psiquiátrico de Sorocaba no ano de 2013, a equipe que atuava na intervenção, entrou em contato com o CAPS David Capistrano relatando sobre os pacientes que eram do Município de Campinas. Dentre estes estava MC, naquela época com 38 anos, nascido em Campinas e que foi internado quando tinha 15 anos, em 16/08/1990. Sua mãe é falecida e seu pai é etilista, segundo relatos dos filhos. Tem dois irmãos, um irmão mais novo e Catarina, a qual não sabemos a idade. Na época da internação morava com a avó. A equipe do Caps David foi até Sorocaba conhecê-lo,segundo relataram, ao chegar no Hospital não puderam ir até o local que MC estava, eles tiveram que aguardar o usuário ser levado até a equipe. Esses mesmos profissionais foram visitar a tia de Marcos para conhecer melhor sua história. Combinamos então uma aproximação com o usuário, a princípio com a vinda dele uma vez por semana, até que criássemos um vínculo e que seus documentos fossem providenciados, como a solicitação do seu benefício. No seu primeiro dia no Caps a equipe do Hospital o acompanhou para passar o caso, a enfermeira pouco sabia de seu histórico, conta apenas de seu comportamento no hospital, sem muitos detalhes, diz de sua convulsão e me ensina a cuidar dele no momento da convulsão: "coloca o pé para segurar sua cabeça e espera passar" (sic). Já no seu primeiro dia ele conta que o Médico do Hospital deu alta de Sorocaba e o "Davi Pai" (sic). Marcos era agitado, invasivo, muito repetitivo, tentava beijar outras pacientes. Ele pedia para dormir no Caps, não queria mais voltar para o Hospital. Na sua segunda vinda combinamos dele passar uma noite no leito, como aconteceu também na terceira vez. Com a intensificação das visitas o momento de MC ir embora sempre era muito sofrido, ele repetia por diversas vezes que já estava de "alta de Sorocaba" (sic). Desta forma conversamos em equipe o optamos por já trazê-lo para o leito do CAPS. Assim no dia 01/10/2013, após 23 anos, MC saiu definitivamente do hospital e vei para o leito do Caps, a princípio com o intuito de ser um futuro moradora da Residência Terapêutica!! Em sua alta do Hospital ele chegou ao CAPS com uma pequena mala de roupas, com sua certidão de nascimento, um relatório com poucas informações e com erro de impressão que cortavam algumas informações, o que impedia de termos sua história por completo. Começamos então o processos de reabilitação psicossocial, tiramos todos seus documentos: Reservista, RG, CPF, Título de Eleitor, Carteira de Trabalho. Fizemos o processo para receber o Benefício de Prestação Continuada e agora iremos solicitar o De Volta para Casa. Realizamos um longo processo de fortalecimento dos vínculos familiares, hoje ele passou a morar com sua irmã, seu cunhada e sua sobrinha. Ele frequenta o CAPS de segunda a sexta-feira em Hospitalidade Dia, o transporte o pega pela manhã na sua casa e deixa no final do dia. MC tem sido acompanhado nas suas questões de saúde, está fazendo acompanhamento com neurologista, clinico geral, oftalmologista, dermatologista. Nos 23 anos de internação percebemos que pouco recebeu cuidados de saúde. Começou no ano passado a frequentar a FUMEC na comunidade e no CAPS participa das seguintes atividades: - Grupo de Referência; - Oficina de Horta; - Oficina de Cinema ; - Oficina de Culinária; - Ateliê; - Assembleia; Pensamos em compartilhar esse relato de experiência, porque nos mobiliza todos os dias a nos interrogarmos qual o lugar dos processos de cuidado e desinstitucionalização na atualidade da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Marcos somente está em Liberdade após a intervenção num Hospital Psiquiátrico (dos inúmeros que ainda existem no Brasil) e da coragem e disponibilidade cotidiana da equipe do CAPS David Capistrano em bancar desafios e entraves em defesa de uma clínica do cuidado que privilegia o Cuidado em Liberdade e em parceria com atores sociais os mais diversos. Acreditamos que a Reforma Psiquiátrica Contemporânea e os Processos de Desinstitucionalização somente serão possíveis se nos permitirmos sermos ousados e a corrermos riscos que nos conduzam à práticas cotidianas que priorizem o que os usuários nos têm a dizer. Parafraseando "O Rappa": "Liberdade sem Voz, não é Liberdade, é Cárcere", e disso nossa equipe não compactua.
No CAPSi Carretel são realizados grupos que denominamos grupos de chegada. Eles acontecem logo após o acolhimento de um caso novo no qual a avaliação feita pela equipe indica que a criança ou o adolescente pode ser acolhida em tratamento no CAPSi. Os grupos acontecem divididos em faixas etárias: Grupo P de 0 a 6 anos, grupo M de 7 a 12 anos, grupo G de 13 a 15 anos e grupo GG de 16 a 18 anos. São em média 4 profissionais responsáveis por um grupo, que se subdivide em 2 profissionais responsáveis pelo grupo de crianças e ou adolescentes e outros 2 por um grupo da família ou responsável. São dois grupos que acontecem concomitantes. Neste trabalho relatarei a experiência do grupo P. Ele acontece 1 vez por semana e tem uma psicóloga, uma Terapeuta Ocupacional, uma técnica de enfermagem e duas residentes, uma de TO e outra de Psiquiatria. Esse grupo tem o objetivo de observar a família e a criança chegando na instituição, momento no qual discutimos sobre diagnóstico de encaminhamento, angústias dos familiares sobre como é estar em uma instituição de tratamento para o filho. Observamos a criança e qual é seu sintoma e seu lugar na vida e no desejo da família. Bem como qual é o lugar que a mãe coloca seu filho, momento de conversarmos principalmente sobre maternidade, suas nuances em relação ao filho e ao “diagnóstico” que o trouxe para um CAPSi. É comum ,na chegada, os familiares relatarem a trajetória que realizaram até chegar ao CAPSi, e mesmo as crianças sendo bem novinhas, já colecionam encaminhamentos, exames e as vezes vários diagnósticos. Geralmente as crianças são encaminhadas pelo C.Saúde, avaliadas pelo pediatra ou neurologista, ou mesmo o psiquiatra. Importante é verificar que a família já chega com um início de história na caminhada da saúde mental, mas estão assustados e muitas vezes confusos principalmente não sabendo o que fazer com o sofrimento de seus filhos, pois já conseguem identificar que algo não está bem. Neste momento, uma primeira hipótese diagnóstica já surgiu e por isso, os pais têm fantasias, angústias e preocupações sobre o futuro da criança, mas sobretudo, ainda estão muito enroscados naquilo que é o próprio sintoma da família, e a criança está no centro deste enrosco. Neste tempo de grupo, nesta observação, esperamos ir modelando um projeto terapêutico singular, com calma e participação ativa da família e da criança, vamos aos poucos construindo um espaço de tratamento possível para a criança e junto, vemos efeito nas palavras que as mães podem circular no grupo, em alguns casos, vemos claramente uma mudança, especialmente no que se refere a mãe, na relação com a criança, colhendo efeitos terapêuticos importantes. Temos inclusive alguns relatos de
um afinamento no diagnóstico. Em crianças que chegam encaminhadas com hipótese de autismo, podemos ver que se trata de um atraso no desenvolvimento da linguagem, ou mesmo no desenvolvimento cognitivo e psicológico, revelando questões de sintomas familiares e relações mãe e filho sintomáticas, que produzem “comportamentos” que em uma primeira leitura, pode ser relacionados à sintomas de um quadro de autismo. Este ponto é delicado, perguntas como o que são sintomas autistas? Se a criança tem dificuldade na aquisição da linguagem ela é autista? Qual é o parâmetro para colocar em um encaminhamento uma hipótese diagnóstica de autismo? O DSM é suficiente para isso? Nossas respostas estão indo cada vez mais para a fineza e delicadeza na observação da criança, da relação mãe e filho, e interação com o outro. Entre os diversos diagnósticos que nos são apresentados, fica cada vez mais evidente que a criança, esse pequeno sujeito já inscrito na linguagem , mostra qual é sua posição em relação ao mundo. E também os pais, identificando suas próprias questões (o que é ser mãe, pai, mulher, esposa e ter uma família?) falam de seus sofrimentos na vida, e assim, permitem uma pequena, mas importante mudança. O efeito de reposicionar a criança, feito pela mãe, o tira da etiquetagem e da carga de ser considerado pela vida toda como uma criança autista. Isto tem acontecido no grupo e acreditamos que é de fundamental importância dividir a experiência.
Relato de experiência – as residências terapêuticas do CAPS Os serviços residenciais terapêuticos são previstos pela Portaria n.º 106/2000, do Ministério da Saúde, que introduz os SRTs no âmbito do SUS, mas iniciaram antes da lei em algumas cidades, como Campinas. As residências terapêuticas do tipo I são casas para até 8 pessoas com transtornos mentais graves e surgiram como nova opção de moradia para pessoas institucionalizadas por 2 anos ou mais em hospitais psiquiátricos, porém hoje abrangem necessidade de moradia de indivíduos que não possuem suporte familiar ou social que garantam um morar adequado. As residências têm suporte de uma equipe interdisciplinar geralmente de CAPS. O CAPS Integração é responsável atualmente por duas residências terapêuticas tipo I, chamadas mais comumente de moradias verde e amarela, ou a feminina e a masculina, respectivamente. Elas foram implementadas em 2005 junto a um projeto de desinstitucionalização de moradores de um Abrigo do município de Campinas voltado ao atendimento de indivíduos com sofrimento mental e em situação de rua. Concomitante a isto, também se discutiu em equipe a possibilidade da inserção nestas moradias de usuários dos Caps com rede familiar comprometida, com prejuízos significativos no andamento de seus projetos de vida. Essa divisão das moradias por gênero ocorreu no final de 2014, proposta feita como tentativa de solução para alguns conflitos entre os moradores, além de relação delicada e complicada com a vizinhança, principalmente com um morador. A mudança foi feita em construção com os usuários moradores e feita como uma experiência. A moradia verde hoje é acompanhada por uma equipe composta de duas terapeutas ocupacionais, uma assistente social e dois técnicos de enfermagem. A moradia amarela por dois terapeutas ocupacionais e por uma psicóloga. As duas residências tem uma monitora em comum. Falar sobre o morar não é simples. É falar de sutilezas, falar do cotidiano da vida, de conflitos de convivência e de compartilhar histórias de vida marcadas por estigma, sofrimento e institucionalização. Na clínica do cotidiano, o modelo de atenção que exercemos nas moradias, procuramos sempre lembrar e intervir no espaço da casa como uma casa, evitando abordagens específicas do CAPS em relação à saúde. Consideramos a singularidade de cada morador e do coletivo, percebemos que cada casa também tem um jeito próprio de organização criado pelo grupo. A moradia amarela teve mais frequentemente caráter de “república”, os moradores não tem todos os horários em comum para as refeições, tem atividades diferentes em seu dia, a limpeza da casa era dividida mais igualmente entre todos e cada um cuida de sua vida com autonomia. Já a moradia verde, teve mais caráter de casa de família com lideranças mais bem estabelecidas sobre organização de tarefas, como o cozinhar. A líder que cozinhava se importava com os outros e com suas refeições, por exemplo: quando não tinha almoço no dia comprava um lanche para todos. Nessa casa, os moradores tinham pouca circulação social, devido principalmente a seu quadro de sofrimento psíquico, faziam pequena circulação pelo bairro somente quando necessário, para ir ao banco ou fazer compras. A organização da casa, das compras, do cardápio semanal sempre está atrelado aos costumes e desejos dos moradores. A equipe do CAPS que trabalha na casa tem a delicadeza de trabalhar na mediação das atividades e das relações, no fazer junto para construção da autonomia dos moradores em sua residência. Temos a delicadeza entre uma residência e a relação que se tem com a instituição CAPS. As intervenções na residência terapêutica pela equipe se efetivam a partir de um trabalho dirigido aos princípios da Reabilitação Psicossocial e da desinstitucionalização do usuário com sofrimento psíquico. Nosso modelo de atenção baseia-se no entendimento de que, a Reabilitação Psicossocial é um processo de reconstrução, como nos diz Saraceno, permeado pelo exercício pleno da cidadania e pela plena contratualidade nos três grandes cenários da vida: habitat, rede social e trabalho com valor social. Portanto, buscamos o desenvolvimento de ações que:
- promovam a circulação pelo território e a capacidade de efetuar trocas sociais e afetivas nos diferentes espaços;
- invistam na autonomia para o auto-cuidado e realização de atividades de vida
- contribuam para apropriação do “espaço do morar”;
-ofereçam estratégias para cuidar do relacionamento interpessoal/dinâmica do grupo de moradores para lidar com a diversidade entre os moradores e possibilite melhorias na qualidade da convivência diária;
-possibilitem diálogo entre os moradores, estabelecimentos comerciais, equipamentos de saúde e espaços de convivência do bairro;
- co-construção de projetos terapêuticos e de vida;
Este processo deve possibilitar ao sujeito em sofrimento psíquico a reconstituição de seu cotidiano a partir da produção de sentidos e da inserção em seu contexto social (Saraceno, 1999). Pelo perfil dos moradores e na história de construção de nossas moradias entende-se este serviço como parte de um projeto de vida que permita a reinserção social, o fortalecimento das relações familiares comprometidas, à retomada de vínculos socais empobrecidos e a garantia do acompanhamento em saúde mental. A maioria dos moradores não entendem este serviço como um fim, mas como uma possibilidade de adquirirem o seu espaço e exercerem os seus direitos civis. Anualmente, a maioria se cadastra no programa de habitação (COHAB) do município com a perspectiva para aquisição de casa própria.
Título: A Livre circulação pela cidade: A construção de coletivos que garantam debates e ações na garantia de direitos fundamentais para usuários da saúde mental. Introdução: Esta roda de conversa pretende trazer ao debate a questão do direito a livre circulação pela cidade, de usuários dos serviços de saúde mental. Sabemos da dificuldade que enfrentam com relação a conquista de direitos e cidadania, carregando uma história de exclusão e anos de violação dos direitos humanos. Em Campinas - S.P- um grupo de usuários e trabalhadores da saúde mental, cansados das dificuldades enfrentadas e da burocracia para conseguir transporte gratuito, se organizaram e foram conversar com o secretário do transporte e vereadores da cidade, conseguindo após essas ações, participar da escrita coletiva de um projeto de lei que pretende garantir o passe livre para os usuários da saúde mental de Campinas, baseados na Lei que já vigora em João Pessoa com relação a esse direito. A importância desse debate é evidenciar o protagonismo dos usuários e a formação de coletivos consistentes que debatam as questões relacionadas a conquistas de direitos que vão para além da questão do tratamento, que incluam o direito ao lazer, a livre circulação, a garantia de direitos básicos para a vida das pessoas, através da mobilização social. “ Poder ter o passe livre é um direito e estamos lutando pelos nossos direitos” (Benedito) “Se não podemos sai de casa, passear, fazer outras coisas além do tratamento, ficamos cativos, presos”(José) Nosso desejo é ampliar essa discussão com outros grupos que já conquistaram esses direitos e outros que como nós estão tentando avançar no debate sobre o direito a cidade, o direito ao acesso, o direito a cidadania, o direito a saúde, educação entre tantos outros direitos fundamentais.
Unidade de Acolhimento Transitório (UAT) O Projeto foi apresentado pelo município no ano de 2010 e recebeu adequações em decorrência da Portaria 121/2012 que instituiu a Unidade de Acolhimento para pessoas com necessidades decorrentes do uso de Crack, Álcool e Outras Drogas, no componente de atenção residencial de caráter transitório da Rede de Atenção Psicossocial, ofertando acolhimento voluntário e cuidados contínuos para usuários em situação de vulnerabilidade social e familiar e que demandem acompanhamento terapêutico e protetivo. Inaugurado no município de Campinas em outubro de 2013, a Unidade caracteriza-se por: 10 vagas (masculino/ feminino), maiores de 18 anos, funcionamento 24hs todos os dias, permanência por até 6 meses e usuários em tratamento na Rede de Atenção Psicossocial de Campinas. A equipe de trabalho é integrada por monitores no período diurno, com retaguarda dos profissionais do CAPS ad Independência e no período noturno, por enfermeiros, técnicos de enfermagem e vigia. O serviço proporciona, cuidado intensivo no sentido de minimizar os agravos da dependência de substâncias psicoativas, gerando a produção de um projeto de vida onde a construção de moradia, atividade laboral, (re)construção de rede de apoio e formação educacional são pilares nos Projetos Terapêuticos Individuais (PTI), germinando respostas concretas às necessidades primárias dos usuários, na perspectiva de: resgate da cidadania, ampliação de autonomia e estímulo ao auto-cuidado; além de apoiá-los na convivência e organização do espaço de moradia, incluindo a realização de tarefas básicas cotidianas em um ambiente de cooperação e respeito. Ações de levantamento de documentos, elaboração de currículos, retomada do tratamentos de outros problemas de saúde (Odontológicos, Diabetes, HIV/AIDS, Hipertensão), oficina de culinária, oficina de caminhada, grupo de educação em Saúde, inserção no mercado de trabalho, inscrições em cursos e em programas de Educação de Jovens e Adultos/Ensino Supletivo, reaproximação dos vínculos familiares, são etapas que têm integrado alguns projetos de tratamento de acordo com a singularidade de cada um. Esse processo é fruto de parcerias estabelecidas com: Centro de Saúde Faria Lima (referência UAT) Núcleo de Oficinas e Trabalho (NOT) do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT), Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) Centro de Referência Especializado de Assistência Social(CREAS), Distrito de Assistência Social Sul (DAS Sul) e Centro de Referência DST/AIDS de Campinas. No período noturno cuidados assistências de enfermagem são prestados de forma a qualificar e compor com o plano terapêutico de cada usuário. As Intervenções de enfermagem realizadas com maior frequências, além da administração de medicamentos e atendimentos individuais, ocorrem nos episódios de: intoxicação por álcool e outras drogas, convulsão, hipo-hiper-glicemia, cefaleia, dor de dente, dor de garganta, gota, orientação alimentar para anemia, intercorrências respiratórios, cardíacas, digestivas e de vulnerabilidades psíquica. Após o primeiro ano de funcionamento, percebemos que o equipamento pode compor e potencializar a produção do PTI elaborado pelas equipes multiprofissionais dos CAPS ampliando as parcerias intersetoriais e fortalecendo o trabalho em rede dentro do SUS, com o intuito de atender de forma cada vez mais qualificada as reais necessidades dos usuários inseridos na UAT. No decorrer deste período, tivemos um fluxo significativo de usuários inseridos e aprimoramos nosso processo de trabalho introduzindo os arranjos institucionais de reunião de equipe e assembléias semanais e supervisões de caso. Por fim, acreditamos que existem muitos desafios para a continuidade do desenvolvimento deste equipamento, entre eles destacamos a necessidade de permanecer enquanto um serviço aberto e de fácil acesso para toda rede, que apresente um trabalho cada vez mais consistente e singular para cada paciente inserido, capaz de potencializar o projeto terapêutico construído pelos CAPS de referência, no sentido de somar esforços no avanço dos projetos de vida dos usuários, bem como no compartilhamento do tratamento psicossocial a eles oferecidos. Relato de Caso: Em 01/08/14 tivemos a inserção da usuária FCL, procedente de uma casa de apoio do município. Com histórico clínico de HIV, diabetes e hipertensão arterial. Ausência de vínculo familiar há mais de 20 anos, inclusive com os filhos. Nunca apresentou registro em carteira de trabalho. Durante o período de inserção na UAT, vivenciamos com a usuária um processo importante de reconstrução da autonomia de maneira gradativa. Expressou vinculação importante com uma técnica de enfermagem da UAT, falando do desejo de encontrar seus filhos na Bahia. Após pesquisa, busca pela internet e telefonemas, localizamos a filha de FCL e uma irmã em São Paulo. Retomou contato com a filha por telefone e facebook. Conseguiu seu primeiro trabalho como auxiliar de serviços gerais, em um supermercado. Como PTI, tinha atendimentos de referência no CAPS. Demonstrou vínculo importante com a UAT, vivenciando períodos de ansiedade e adaptação à sua nova rotina. Realizou abertura de conta em banco, depositando todo més o salário que recebia, conseguindo poupar e juntar uma boa quantia em dinheiro. Encaminhamos F.C.L para tratamento das questões clínicas, odontológicas, oftálmicas e atualização vacinal no CS Faria Lima. Realizamos a alta da usuária de maneira gradual. FCL junto com profissional de referência e profissionais da UAT, procuraram casa para alugar e móveis (usuária recebeu algumas doações e comprou o restante). FCL teve alta em10/02/2015, com retornos à UAT em alguns momentos mesmo após a alta. FCL continua trabalhando, está morando em casa alugada, cuidando dos dentes (processo que iniciou na UAT), colocou aplique no cabelo, como parte de resgate da auto estima e estreitou relações com familiares.
- Formação e Gestão Participativa
“Que reta aguarda a retaguarda?” Ou,... “Que territórios podem se formar em meio ao processo de desconstrução de um hospital psiquiátrico?”
A Reforma Psiquiátrica enquanto um processo social complexo fomenta em sua multiplicidade a produção de um universo de práticas alinhadas às transformações das/nas relações que envolvem os planos da clínica e do cuidado em saúde mental. O presente trabalho almeja encorpar reflexões e inquietações acerca do processo de desconstrução da unidade de internação em Saúde Mental - Núcleo de Retaguarda do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira. Em linhas gerais, o Núcleo de Retaguarda nasce em 2009 a partir da junção dos 3 setores especializados no tratamento de usuários com transtornos mentais graves (I-nac); com co-morbidades clínicas (II-núcleo clínico); com uso de substâncias psicoativas (III-nadeq). Sua oferta se destina a usuários que se encontram em momento de crise e necessitam de internação temporária, compartilhando e articulando ações na rede SUS/Campinas em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica e da Atenção Psicossocial (por exemplo, os projetos terapêuticos singulares, práticas intersetoriais, campo de formação, entre outras...). De maneira direta: trata-se de um hospital psiquiátrico em certa medida “reformado” de acordo com algumas dimensões de análise citadas acima. Em 2014, após iniciar intenso processo de mudança de gestão local com importante participação do seu Colegiado Gestor (lembramos que esse árduo processo seletivo só viria a ser concluído finalmente em Abril de 2015...), o Núcleo de Retaguarda atravessou constante processo de transformação de sua existência que perdura até os dias atuais. Vale lembrar que, tal processo de transformação possui alguns marcos de referência, a saber: o posicionamento de sua equipe mediante o processo de mudança de gestão provocando impacto político institucional; o contato com palestrantes (Roberto Mezzina/Itália e Victor Aparicio Basauri /Espanha) do Congresso Internacional de Saúde Mental que participaram de encontro/supervisão na equipe alimentando nossas inquietações sobre a perspectiva da possibilidade concreta da desospitalização e desinstitucionalização progressivas; a apresentação do Núcleo de Retaguarda em espaço de gestão ampliada “Colegiado Aberto” (a pedido do coletivo de trabalhadores do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira) não somente para ilustrar o momento da unidade, mas sim, trazer à cena uma fotografia sobre alguns impasses em nossas práticas clínicas, processos de trabalho, construção do cuidado em rede para possibilitar concretamente de construção coletiva do fechamento do hospital psiquiátrico de forma contínua, progressiva, cuidadosa, responsável e vitalista. Sublinhamos que, para efetivar o debate, utilizamos como estratégia metodológica a apresentação dos dados indicadores da unidade e algumas vinhetas de casos clínicos que refinaram a compreensão do contexto, alargando o debate coletivo e solidificando o posicionamento da equipe do Núcleo de Retaguarda redefinindo sua missão e agenciando outros atores em jogo nesse processo: os trabalhadores, a direção institucional e alguns segmentos do colegiado de gestão. Dessa forma, a abertura aos acontecimentos permitiu a possibilidade de outros agenciamentos coletivos de enunciação em seus rearranjos de forças instituintes na micropolítica em jogo (como produção, foi criada a proposta de
um grupo de trabalho ampliado para efetivar concretamente a processualidade do fechamento do hospital psiquiátrico), abalando, ruindo, vibrando, intempestividades pulsantes em cada corpo implicado em suas composições singulares e coletivas no desafio da construção de um plano comum (e NÃO igual!) de cuidado em Saúde Mental. Engravidar assuntos, dar lugar e passagem as nossas multidões coletividades em suas intensidades sem dúvida amplia uma gesta-ação participativa, cooperativa e solidária nas redes vivas do cuidar. Portanto, em um movimento de intensa desterritorialização do instituído hospital psiquiátrico em seu processo de produção alinhado à redução de leitos em curso rumo ao seu horizonte-fechamento, não nos cabe reconhecer o patrimônio da Reforma Psiquiátrica sobre o prisma do que queremos reformar, mas sim no/do que queremos transformar. Talvez, situar essa posição seja um ponto fundamental para não naufragarmos nossa “Nau dos insensatos” em psiquiatrias reformadas nos mares mentaleiros, além produzir contribuições
ímpares na dimensão da Educação Permanente. Mas isso só faz nos encontros em ato...
A equipe enquanto lugar de formação: a educação permanente em um centro de atenção psicossocial álcool e outras drogas (CAPS ad). Investir numa lógica que busque uma atenção de qualidade e humanizada no âmbito da clinica de alcool e outras drogas (ad) requer um modelo assistencial embasado em políticas públicas articuladas, serviços estruturados e profissionais com formação em direitos humanos, que desenvolvam trabalho multidisciplinar, que se relacionem com outros setores da sociedade e que tenham capacidade de programar atividades culturais, esportivas, artísticas e de geração de renda. Entretanto, abarcar todos esses referenciais, muitos ainda em desenvolvimento para a realidade da maioria dos serviços, tem sido descrito como estressante para os profissionais de saúde mental. Acredita-se que esse tipo de desconforto possa ser minimizado por processos de formação em serviço. Além disto, o tema "álcool e outras drogas" indica a necessidade de uma ação ampliada, onde diferentes saberes teórico-técnicos-políticos devem ser constantemente revisados. Portanto, devido à esta complexidade da clinica ad, a formação dos trabalhadores que atendem a esta população, necessita ser de forma contínua, atrelada ao cotidiano dos servicos, uma vez que o manejo necessário para se ofertar uma atenção adequada aos usuários de drogas, extrapola o conhecimento tradicional/acadêmico e engloba conhecimentos que são adquiridos através da prática, empiricamente, incluindo a lida com os sentidos e valores dos trabalhadores, que podem comprometer o cuidado. Desta forma, debruçar-se sobre este "saber" complexo de forma coletiva e constante, mostra-se um recurso precioso para os trabalhadores dos CAPS ad. Sabe-se também que a atenção à saúde mental pode trazer dificuldades aos profissionais, devido ao contato constante com o sofrimento psíquico e situações complexas de extrema vulnerabilidade social. Isto exige uma postura ético-política destes profissionais a ser sustentada no trabalho em equipe, o que justificaria a existência de espaços coletivos de reflexão. Essa necessidade fica mais evidente na atenção aos usuários de drogas, pela própria complexidade da clínica e há desafios a serem enfrentados no cotidiano destes serviços, que exigem esforços para se evitar simplificações reducionistas, que muitas vezes ocorrem no manejo dos usuários de substancias psicoativas (SPA). Cientes desta magnitude, uma equipe de um CAPS ad é incentivada pela gestão local a se debruçar, regularmente, sobre as possibilidades de cuidados e seus entraves. Para tanto, na reunião geral desta equipe são organizados momentos, nos quais o grupo colabora, ao trazer questões emblemáticas do cotidiano e fazendo colocações livres, como oferta de referenciais teóricos ou ao indicar estudiosos que possam contribuir com a reflexão dos problemas que permeiam o dia a dia neste CAPS ad. Um serviço inaugurado em dezembro de 2011, administrado por uma instituição pioneira em equipamentos substitutivos de base territorial, com uma equipe jovem, muitos em sua primeira experiência profissional, com formações diversas e muitas vezes insuficientes frente a esta temática tão densa, em algum momento inaugurou um espaço de discussão teórica e clínica, dentro da reunião de equipe, chamado pelo próprio grupo de “educação permanente” (EP). Este momento visa a busca de possíveis caminhos que contribuam para uma assistência que renove as práticas existentes, de forma que alternativas criativas se mostrem mais eficientes na atenção às demandas dos usuários de SPA. A equipe acredita que esta prática ajuda a refletir e rever o processo de trabalho, deixando-os mais satisfeitos com sua atuação profissional e empoderados de suas práxis. Este dispositivo se mantém vigente, nas mais diversas formas e a experiência desta modalidade de formação em serviço foi o objeto deste estudo, que se propôs a levantar e analisar elementos para a formação coletiva em serviço de saúde mental, a partir desta vivência, considerando a concepção dos profissionais envolvidos, ao pontuarem as necessidades, dificuldades, facilidades e estratégias, durante a implantação e curso deste processo. Além disto, sugeriu-se subsídios para o aprimoramento deste processo neste serviço e discutir possibilidades de inserir metodologias ativas de ensino aprendizado, como a problematização, no contexto de um CAPS ad. Como são poucos os relatos de experiências, relacionados à formação em serviços destinados especificamente a abordagem de SPA, divulgados à comunidade científica, evidencia-se a importância de compartilhar vivências nesse campo. Há a aposta que de este estudo possa instigar outras equipes de CAPS ad a fomentarem discussões sobre suas práticas, com base em processos de formação coletiva em serviço.